Com um sorriso acolhedor, Gladys Nilsson me ajuda a carregar a mala para dentro de sua casa, um charmoso edifício de tijolos com interiores no estilo Craftsman. Desde 1976, Nilsson vive nesse espaço repleto de arte, cercada por seu marido, o artista Jim Nutt. O casal se conheceu em 1960, quando eram estudantes na School of the Art Institute of Chicago, e desde então, a arte tem sido uma constante em suas vidas.
O ambiente é um reflexo de suas personalidades vibrantes. Obras de arte, esculturas, máscaras e uma infinidade de livros e papéis se acumulam de forma aparentemente caótica, mas que, para eles, faz parte do charme do cotidiano. “As coisas ficam por aqui e nós ignoramos,” diz Nilsson com um leve tom de humor. É nesse cenário que ela se prepara para uma nova fase de sua carreira, marcada pela exposição que promete ser uma celebração de suas seis décadas de trabalho.

A Retrospectiva Imperdível
A mostra ‘Gleefully Askew’, que leva o nome de uma de suas obras de 2019, será inaugurada no dia 19 de julho e inclui mais de 100 peças, entre aquarelas, pinturas em acrílico, colagens e desenhos. “É grande,” ela afirma, com os olhos azuis brilhando de entusiasmo. A exposição não só marca um retorno ao Crocker Art Museum, onde Nilsson já havia exposto em 1969, mas também representa um momento de reflexão sobre sua trajetória artística.

As figuras estilizadas de Nilsson, com suas cores vibrantes e proporções excêntricas, habitam cenários que, à primeira vista, podem parecer comuns. No entanto, cada cena é impregnada de micro-dramas, refletindo seu olhar aguçado sobre a vida cotidiana. Seus personagens, embora não sejam autorretratos, são indiscutivelmente ecos de sua própria experiência e humor.
À medida que planejava a retrospectiva, Nilsson se deparou com a evolução de suas personagens ao longo do tempo. “Estou usando a mim mesma como ponto de referência para entender como as figuras mudaram,” explica. O que antes era frescor e vivacidade agora traz um toque de melancolia, uma representação do próprio envelhecimento da artista.

Curada por Francesca Wilmott, que descobriu Nilsson durante sua graduação, a retrospectiva tem como objetivo ampliar a percepção sobre a artista, destacando sua relevância internacional e a importância de sua obra em um contexto mais amplo. “Quero que as pessoas vejam Gladys além do contexto de Chicago, como uma artista que desafia rótulos e categorias frequentemente impostos a seu trabalho,” afirma Wilmott.

Assim, a exposição ‘Gleefully Askew’ não é apenas uma celebração da arte de Gladys Nilsson, mas também uma oportunidade de redescobrir e recontextualizar uma das vozes mais singulares da arte contemporânea.
