Quando a Chanel desembarcar em Sydney neste novembro, será um marco histórico, mas poucos conhecem a fascinante história que antecede esse momento. Em 18 de outubro de 1982, durante um desfile no Louvre, Paris, a casa de moda apresentou algo inédito: um padrão vibrante criado pela designer australiana Jenny Kee, que, com suas raízes em Bondi, trouxe um toque audacioso e exclusivo à herança da Chanel.

Naquela época, o desfile era dominado por interpretações do clássico terno bouclé de Coco Chanel, em tons pastéis e cortes ousados. Contudo, à medida que as modelos desfilavam, um padrão excepcional começou a emergir, uma mistura de formas em um fundo branco e, ocasionalmente, preto, que capturava o olhar do público. Cores como azul, escarlate, amarelo e cobalto se entrelaçavam, criando uma imagem que, em uma das peças, se revelava como o contorno inconfundível da Austrália.

Esse padrão, que se tornaria um ícone, era a criação de Kee, uma artista multifacetada de herança chinesa, italiana e inglesa, cuja sensibilidade australiana a tornou uma pioneira na moda. Reconhecida por sua contribuição para a coleção da Chanel, Kee também teve seu talento destacado em 1983, durante o centenário de Coco Chanel, quando uma de suas criações foi apresentada na National Gallery of Victoria, solidificando seu lugar na história da moda.

Entretanto, a narrativa de como uma designer australiana se tornou parte de uma coleção tão significativa da Chanel nunca foi completamente explorada. A moda é dinâmica e, muitas vezes, os detalhes se perdem com o tempo, assim como lantejoulas que caem de um vestido em movimento. Para entender melhor essa conexão, voltei à minha infância, quando vivia com minha mãe nas Montanhas Azuis, onde Kee era vizinha e amiga da família. Sua história com a Chanel me impressionou desde cedo, e agora, ao revisitar esse capítulo, descobri detalhes que até mesmo Kee desconhecia.

Jenny Kee, em sua jornada, passou por Londres em 1968, onde desafiou normas ao aparecer nua na capa da revista Oz, editada por Richard Neville, meu tio. Ao lado de Vernon Lambert, um visionário do vintage, Kee começou a moldar seu caminho na moda. Retornando à Austrália em 1972, abriu o Flamingo Park Frock Salon em Sydney, onde, junto a Linda Jackson, começou a construir uma linguagem de moda que celebrava a beleza do país, inspirando-se em opalas, flores nativas e na rica biodiversidade australiana.

“Fizemos uma beleza completamente australiana”, relembra Kee. “Éramos frescas, puras e apaixonadas pela nossa terra. Nosso amor pela Austrália era evidente em cada peça que criávamos.” Ao refletir sobre o impacto de sua obra e a importância de sua história, é claro que a moda vai além do que vemos nas passarelas; é uma expressão cultural que, como Kee comprovou, pode transcender fronteiras e deixar uma marca indelével na história.
