Enquanto aguardava o início de um desfile de moda em Copenhague, fui surpreendido por duas mulheres que se destacavam em meio à multidão, cada uma com sua própria versão do vestuário militar. A primeira exibiu calças cargo oversized em um tom marrom, combinadas com uma camisa xadrez igualmente ampla, um lenço de seda e saltos em estampa de cobra. A outra optou por um visual mais ousado: shorts de moletom camuflados, caindo logo abaixo dos joelhos, que ela complementou com um colete sem costas com franjas, mules abertas e uma bolsa Chanel vermelha vibrante. O que mais chamava a atenção? A total falta de harmonia entre as peças. E essa parecia ser a intenção.
À medida que observava os looks diversos durante a Copenhagen Fashion Week, percebi que a única regra era a ausência de qualquer padrão. Sandálias de gelatina com calças plissadas, calças de moletom sob um vestido de crochê, um corta-vento combinado a uma saia de paetês, e toucas brilhantes com camisetas esportivas. Esses conjuntos elevaram o conceito de justaposição, muitas vezes utilizado na moda, a novos patamares. Em vez de seguir uma tendência coletiva, os presentes pareciam unidos em uma abordagem de vestir que celebra a atração dos opostos.

Ainda que algum tipo de contraste seja a essência de um bom look, a recusa total em coordenar as peças era impressionante. Essa divergência não se restringe apenas à estética, mas também carrega simbolismos profundos. Os participantes do evento estavam combinando peças utilitárias – como roupas de exército, calçados de trilha e botas de bico de aço – com emblemas de frivolidade, como saltos enfeitados, chapéus pillbox e bolsas de seda. Apesar do efeito de aleatoriedade, havia uma execução cuidadosa por trás desses trajes.
Essa abordagem não é nova; há alguns anos, a stylist Allison Bornstein começou a promover uma ideia semelhante em relação ao calçado, que ela chamou de 'Wrong Shoe Theory'. Segundo essa teoria, o ideal é que o calçado contraste com o restante do visual, como tênis de pai combinados com vestidos volumosos ou saltos elegantes com shorts de denim e blazer. Porém, na Copenhagen Fashion Week, esse conceito foi levado a um novo nível, onde a oposição no vestir se torna uma declaração de estilo.

Copenhague, conhecida por ser um celeiro de microtendências, já viu surgir entre suas ruas scrunchies, chinelos, malhas coloridas, vestidos de prairie e muito mais. A pergunta que os fashionistas se fazem agora é: e se você usasse todos esses elementos ao mesmo tempo? E, surpreendentemente, essa mistura extravagante é celebrada nas redes sociais, onde fotos de looks coloridos e inesperados têm grande desempenho no Instagram e TikTok – muitas vezes mais valorizados do que as opiniões dos colegas da vida real.
No atual cenário da moda, impulsionado por algoritmos, o valor do estilo pessoal, ou pelo menos da aparência de um, se destaca acima de tudo. Estamos testemunhando a dissolução do tribalismo na moda, onde as seções que antes se dividiam em grupos de vestuário semelhantes – como o casual de Armani ou o gótico de Rick Owens – estão se fundindo. Agora, um bom look pode – e deve – incorporar elementos de diferentes estilos.

Talvez essa nova forma de se vestir (podemos chamá-la de 'opposição no vestir'?) seja o resultado de um sistema de moda mais democrático. Os consumidores têm mais acesso do que nunca, e o 'high-low dressing' é não apenas aceitável, mas encorajado. Mais importante ainda, em uma era de uniformidade gerada por algoritmos, todos desejam expressar que são indivíduos variados e complexos, e fazem isso por meio de seus trajes igualmente variados e complexos.
