Stella Jean e a Moda Sustentável: Um Encontro de Culturas na Primavera de 2027

Stella Jean e a Moda Sustentável: Um Encontro de Culturas na Primavera de 2027

A coleção de primavera de 2027 de Stella Jean, que foge da agenda tradicional da Semana de Moda de Milão, é um tributo às culturas da Uganda, Itália e Sahel, refletindo um projeto colaborativo que transforma resíduos em moda.

Em uma ousada reinterpretação das fronteiras culturais, Stella Jean apresentou sua coleção primavera-verão 2027, intitulada "Uganda-Italia-Sahel". Ao invés de seguir o calendário convencional da Semana de Moda de Milão, a designer decidiu que suas criações seriam lançadas durante o verão, enquanto ela estava em Kampala, capital da Uganda. Lá, ela se uniu às mulheres da Meeting Point International, uma organização fundada pela enfermeira ugandense Rose Busingye, que há 15 anos apoia mulheres que vivem com HIV, capacitando-as a transformar papel descartado em contas para joias que financiam uma escola local.

A proposta inicial de Jean, que imaginou aplicar a mesma técnica de confecção de contas em roupas, foi recebida com risadas. No entanto, o primeiro experimento resultou em uma saia feita de contas de papel colorido, revestidas com látex natural e entrelaçadas em nylon elástico. "Eu sei que parece absurdo, mas é incrivelmente usável. É elástico, resistente e não há tecido ou metal envolvido", comentou Stella. Esta colaboração faz parte do programa Fashion for Fragile Ecosystems da FAO Mountain Partnership, mas o verdadeiro interesse de Jean reside em garantir que as mulheres possam continuar a produção de forma autônoma após sua saída.

Para atingir esse objetivo, a construção das peças não incluiu zíperes, padrões complicados ou processos que dependessem de eletricidade. Assim, os resultados são visíveis em saias lápis sob camisas brancas oversized, vestidos tanque que se dissolvem em franjas longas, e saias abertas com franjas, combinadas com polos cropped. A própria ideia de reparo foi repensada: "Basicamente, inventamos o atendimento ao cliente para roupas de papel", afirmou a designer. Além disso, a Uganda também contribuiu com rígidos recipientes de palha trançada da região de Bwindi, adaptados em bolsas de cintura com fechos de couro italiano.

Jean não parou por aí. Ela revisitou o Bogolan do Mali, tingido com barro fermentado, e o Bundu Bundu, composto por tiras estreitas trançadas à mão. Os brincos oversized, por sua vez, foram moldados a partir de tambores de óleo descartados, seguindo a tradição haitiana do fer découpé. "Você não sente aquele olhar de pena que às vezes as peças recicladas transmitem", acrescentou Jean, ressaltando a autenticidade de cada região, que se mantém visível, sem se dissolver em uma única linguagem decorativa.

O contraponto italiano, sempre presente na obra de Jean, se manifestou em camisas listradas masculinas, bordados de algodão branco que evocam enxovais familiares e corpete rígido pintado e bordado na Umbria. A designer trouxe ainda uma T-shirt com a frase "Sei libera, sii grande", retirada do Palazzo Madama, que adicionou uma camada significativa à coleção. "É quase como se alguém dissesse: eu te libertei, agora é sua responsabilidade se tornar grande", explicou. Essa troca entre liberdade e responsabilidade também se reflete no trabalho realizado em Kampala: Jean concebe a ideia e, em seguida, a entrega de volta. "A co-criação precisa evoluir além daquela maneira paternalista de ajudar", concluiu. "Elas já fazem isso para viver. Se nos encontrarmos no meio do caminho, poderemos criar algo juntos."

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