As quatro dias de desfiles de alta costura trouxeram à tona uma questão intrigante: o que a moda de luxo pode nos dizer sobre a era frenética que estamos vivendo? Em um contexto onde a criação de roupas é voltada para um número crescente de bilionários, buscar clareza nas coleções elaboradas por mestres artesãos é, por definição, uma tarefa paradoxal. Contudo, a alta costura, com suas peças meticulosamente feitas à mão e que exigem centenas, às vezes milhares, de horas de trabalho, ganha uma nova relevância em um tempo dominado pela inteligência artificial.

Ainda que a estética da alta costura esteja se tornando cada vez mais excêntrica, quase algorítmica, sua essência permanece irresistivelmente humana: um conhecimento que é passado de geração em geração, de mãos habilidosas para mãos em formação. Nesta temporada, os designers pareciam determinados a transformar esse saber em pura diversão. As coleções foram povoadas por caixas de fantasias infantis, contos de fadas, monstros e criaturas imaginárias, criando um clima que, por vezes, beirava o Halloween sofisticado.

O sentimento predominante não era o de refinamento, mas de transformação — a alta costura era concebida menos como a mais pura expressão da alfaiataria e mais como um experimento tridimensional radical. Na passarela da Chanel, espantalhos e heroínas de contos de fadas se misturaram, enquanto a Dior apresentou leques que lembravam pavões. Schiaparelli mergulhou nas profundezas do oceano com criaturas marinhas, enquanto Robert Wun trouxe balões e ursos de pelúcia, e Jean Paul Gaultier fez tules eruptarem como tobogãs aquáticos.

As criações variavam de vestuário a esculturas, com algumas peças exigindo transporte em caminhões refrigerados em vez de limousines. O retorno à infância na Chanel foi literal: Matthieu Blazy, em sua segunda coleção na maison, se inspirou em um volume centenário de contos de fadas que pertenceu a Gabrielle Chanel. Personagens como a Bela Adormecida e o Patinho Feio foram traduzidos em bolsas em forma de urso e um eclético arranjo de botões e organzas bordadas, criando um guarda-roupa que, longe de ser infantil, era encantado — uma vestimenta adulta animada pela liberdade ilógica de uma história de ninar.

Robert Wun seguiu uma linha semelhante, mas com uma abordagem muito mais camp. Sua coleção, intitulada Childsplay, transformou arquétipos e objetos da infância em vestidos geométricos e acessórios com ursos de pelúcia, todos cercados por balões gigantes. Daniel Roseberry, da Schiaparelli, desceu às profundezas oceânicas, criando peças que brilhavam como os tênis infantis, enquanto silicone e látex se transformavam em peles, escamas e tentáculos, mutando o corpo em algo aquático e surreal. Essas criações não eram apenas vestidos decorados com motivos surrealistas; elas propunham a alta costura como uma anatomia especulativa — uma sugestão de que o verdadeiro luxo é transgredir a forma humana biológica.

A estreia de Duran Lantink na Jean Paul Gaultier empurrou os limites do corpo em direções igualmente caricatas: vestidos foram virados de lado, saias tubulares se projetaram, e corpos pareciam distorcidos, enquanto asas gigantes forçavam o público a se afastar dos limites do salão. Os gestos eram deliberadamente absurdos, mas sustentados por uma técnica formidável, com penas da Maison Février e bordados que remetiam à cama de Maria Antonieta em Versalhes, demonstrando que uma piada na alta costura pode exigir um extraordinário grau de seriedade para ser executada.

Os designers indianos Rahul Mishra e Manish Malhotra mostraram como uma instituição ainda considerada tipicamente parisiense está sendo revitalizada por vozes, tradições e centros de produção além das fronteiras da França. Mishra buscou inspiração nas pinturas e esculturas das cavernas de Ajanta, algumas com mais de dois mil anos, criando estruturas tão elaboradas que precisavam de várias pessoas para serem sustentadas. As silhuetas desafiam a gravidade de Malhotra se desdobravam como pavões, incrustadas com os bordados manuais e as aplicações que tornaram a Índia essencial para a alta costura mundial.

